Prólogo

Passei todo o dia de ontem e o de hoje em um imbróglio comum aos viajantes que não são práticos. A velha dúvida entre o que empacotar e o que largar para trás. Encerro a seleção na certeza de que todos os pares de sapatos escolhidos não me deixarão na mão ou no perigo de me tornar uma estrangeira baranga que esqueceu o bom gosto em casa.

Não foi fácil me preparar para esta viagem. O Caribe é traiçoeiro nesta época do ano. Já me resignei ao fato de que hei de passar mais calor do que gostaria e que a umidade, esta estranha aos que vivem na árida capital brasileira, me castigará sem dó, desabrochando minhas madeixas rebeldes em um volume inexplicável e medonho. Mas existe sempre a chance dos furacões aparecerem e aí a história é outra. Por menos vaidosa que uma mulher possa ser, a mala é sempre a mesma. Imensa. Nossa prerrogativa básica é carregar mais do que o necessário simplesmente porque só o necessário não é – nem nunca será – suficiente. Por sorte, Rita, minha companheira de aventura, pensa do mesmo jeito.  Secador, ok. Maquiagem, ok. Bijuteria, ok. Três mil peças de roupa, ok. Maiô, ok (sobre essa parte de banho, leia o anexo 1).

Preciso me lembrar a cada momento que vou para Cuba e que este é um país peculiar. Por aquelas bandas comunistas, prevenir é melhor do que remediar porque o diagnóstico você pode até conseguir, já o remédio… O kit de primeiros-socorros é praticamente uma farmácia. Nada está imprevisto. Até se um inseto tropical não catalogado e potencialmente letal resolver por bem me atacar, tenho na manga uma pomada milagrosa que me cure todos os males.

A mala, tormento eterno de quem viaja, está pronta. Despeço-me melancólica do meu amor que fica. Um prenúncio da saudade que vou sentir me alfineta o peito. Um beijo a mais, um “até já” para evitar drama e sigo para o aeroporto.

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Viajar é preciso

22h00 – Embarque imediato

Na porta do embarque, benção de mãe e avó e um lembrete astuto do meu pai para que em hipótese alguma eu esqueça seus charutos. Sigo para o portão 08, onde o avião com destino a São Paulo me espera. Não gosto de voar. Fico aflita, não entendo a física. Já chorei enquanto o avião taxiava no pátio. Mas vou ter de segurar a onda e engolir seco porque em nove dias de viagem serão oito vôos, inclusive dois trechos em Cuba a bordo das duvidosas aeronaves da Cubana Airlines.

23h40 – São Paulo

Chego ao monstruoso aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, sabendo que a espera será extensa e cansativa. O vôo para o Panamá só sai às 03h50 e o check-in será aberto à 1h da matina. Rita e eu ficamos exiladas do lado de fora do aeroporto, único lugar onde podemos fumar. Somos recebidas pela garoa fina e fria que cai do céu cinzento da capital paulista. O tempo passa rápido, conversamos sobre tudo no mundo. O foco é Cuba, claro. Honestamente, por mais que eu tenha lido os livros, visto as fotos e escutado a música, qualquer vaticínio sobre o que meus olhos virão em apenas algumas horas é inútil. Meu instinto diz que não adianta especular. Até interrompi as leituras sobre o país porque não quero ter nada com o que comparar. Quero a surpresa.

O check-in foi aberto e, respeitando a tradição no Brasil, a fila é imensa. Não sei se é por causa da madrugada, mas o atendimento caminha a passos de lesma. O único jeito de chegar a Cuba é via Panamá e não é possível que toda esta gente tenha resolvido visitar a menina dos olhos de Fidel Castro. Logo me dou conta de que rumam para os Estados Unidos e com tantas crianças sonolentas e chorosas, o destino final deve ser a Flórida. CEP: Disney. A mesma Flórida das balsas clandestinas apinhadas de cubanos “desesperados”, como dizem os jornais. A viagem pela panamenha Copa Airlines é mais barata, daí o tumulto. Dez famílias depois e voilà, terminou.

08.10.2009

03h50

Muitos cigarros e muitas horas se passam até a hora de viajar. Penso comigo mesma que eu deveria poupar a reclamação sobre a espera que está na ponta da minha língua para a volta ao Brasil e é o que faço.

O avião é pequeno para um vôo internacional. O modelo é o mesmo que usam nos trechos domésticos no Brasil. Vá lá, estou tão cansada que não vou ligar.

7h (Brasília -2. Hora do Panamá)

Rita me sacode porque vão servir o café da manhã. Não posso ver, mas sei que estou com a cara amassada e com aquela cera que os anjos passam na cara da gente durante o sono que deixa a pele meio oleosa, lustrosa. Quando recebo a minha ração e abro o papel alumínio não consigo entender o que diabo é isso dobrado no meio do prato. Será um presunto? Um peito de peru? Um leitão inteiro prensado? Faço força pra cortar e a culpa não é dos talheres de plástico se falho na tarefa. Não estou tão apertada de fome. Deixa pra lá. Como o pão com margarina, tomo um café e volto a dormir. Não demora muito e chegamos à Cidade do Panamá.

Cruzamos todo o generoso aeroporto até o portão do próximo vôo – lembre-se que este será o terceiro, só na ida – para finalmente pisar em Cuba. Pelas pessoas que aguardam no saguão, vou tentando determinar o tipo de gente que visita o país. Incontáveis bolivianos e argentinos. Ia ser bom se fosse possível comprovar que o casal mexicano sentado aqui perto faz parte da indústria de filmes adultos. Que parece, parece. Coço para não perguntar quanto a moça pagou pela plástica no rosto e se dói colocar silicone nos lábios. Melhor não.  “Atenção passageiros do vôo 438 com destino a Havana, Cuba, o embarque está sendo realizado no portão número 12.”

10h

É a segunda vez que vou ver o vídeo dos procedimentos de segurança protagonizados por um comandante narigudo e uma aeromoça (não consigo usar “comissária de bordo”, não combina) que não abre o maxilar para falar nem por um decreto. Acho que estou tão ansiosa que as três horas de viagem até Havana parecem uma eternidade. Entro numa hora perigosa. Conheço como hora perigosa aquela inquietação ou uma subida brusca nas taxas de glicose que me faz falar mais do que o homem da cobra e nada do que digo salvará o mundo ou servirá de inspiração para crianças. Haja paciência para agüentar as asneiras que sou capaz de inventar. Rita ri muito. Depois de muitas horas viajando, é preciso ter bom-humor para não perder a cabeça.

De repente, olho pela janela e vejo matizes de azul e verde impossíveis. O homem não é capaz de reproduzi-los. Por um momento, faz-se silêncio e só se ouve o som dos cliques das câmeras fotográficas. Como todo mundo, estou boquiaberta. Quanto mais perto a água vai chegando da terra, mais clara vai ficando, até assumir uma delícia incolor. Este mar é um convite irrecusável.

aviao

Acredita?

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Havana: Imigração e um tapa do calor

As pernas que suportam meu peso extraordinário estão felizes em se levantar e parecem cientes de que permanecerão estiradas por um bom tempo. Propriamente dito, não sou eu e sim meus membros inferiores e superiores que regozijam a liberdade de movimento. Sequer reclamam da carga que cabe a eles suportar. Estou feliz porque nada foi extraviado.

A recepção havanesa não é particularmente calorosa. Não seria exagero dizer que beira o oposto. Enquanto aguardo pela passagem da imigração, listo mil problemas que poderia ter para entrar no país e como escaparia deles. Uma senhora grita na minha direção: “Le toca a usted”. Apresso o passo e sigo para a cabine. Do outro lado do vidro, uma negra bonita, talvez hipermetrope a julgar pelos óculos, me encara com olhos pretos gentis, mas sem excesso de simpatia. Enquanto ela faz perguntas de rotina em um sotaque de espanhol que não me é familiar, me distraio com a artimanha do seu penteado. Puxadas rente à raiz, as tranças do rastafári formam curvas sinuosas na cabeça da mulher. “Seus pais são brasileiros?”, pergunta. “Sim”, respondo um pouco aflita. “Os dois?”, lança novamente. “Sim. Minha mãe é brasileira e meu pai é grego, naturalizado brasileiro.” Ela me manda olhar para a câmera fotográfica circular que pende pouco acima da minha cabeça. Eu sorrio, não há cliques. Ela aciona o botão que destranca a porta e penso que passei pelo mais difícil.

Poucos passos e eis ao raio-X. Temia um pouco essa parte por motivos tecnológicos – e pela notória paranóia de espionagem dos cubanos. Decidi trazer o laptop pela facilidade de escrever sobre a viagem. O smartphone veio junto por um simples motivo: em Cuba, o acesso à internet é extremamente caro e restrito. Achei que seria uma mão na roda trazer o celular comigo. Mas lendo sobre as proibições em casa, me saltou aos olhos que aparelhos de GPS têm a entrada vetada no país e, por azar, o diabinho móvel está equipado com um sistema desse, ainda que nunca tenha sido ativado. Decidi arriscar.

Coloco todas as coisas na esteira (inclusive meu casaco, a pedido do senhor) e quando vou recolher meus pertences, o homem pede para ver novamente o passaporte. Estendo-o com a mão firme na esperança de que meu nervosismo não transparecesse. Ele passa a vista, olha pra mim já devolvendo o documento e faz sinal para que eu vá embora. Meu palpite é que eu tinha a senha: Brasil. Qualquer outra nacionalidade, a não ser a russa e a venezuelana, e a protagonista estaria em apuros. Pode ser que não, mas como eu gosto do suspense.

Cruzo as portas do desembarque e procuro a placa da Quick Viaggi, responsável pelo transporte até o hotel. São muitas placas, muitos senhores de calças azul-marinho e camisas brancas. Não encontro. Rita e eu estamos desesperadas para fumar. Sei que cultivo um mau vício, mas estou na terra do tabaco mais caro e prestigiado do mundo. No momento em que as portas se abrem para a rua, a umidade e o calor sobrenaturais cobrem o meu corpo e imediatamente as roupas grudam em mim e me sinto melada. Mal consigo terminar o cigarro. São muitas horas sem nicotina, fico tonta. Volto ao saguão e pergunto pela Cubatur. Um senhor me indica o número do ônibus que devo entrar. A caminhada até o estacionamento leva poucos minutos e a força do sol de 13h está se exibindo. Não gostei dessa informação do ônibus. Significa que vou perder um tempo precioso porque o transporte é meu e de outros 27 suados. Vejo alguns carros antigos parados e giro um pouco a vista para me deparar com uma frota de taxis da marca francesa Peugeot. Não entendi.

Já estou sentada no ônibus quando uma senhora branca de cabelos curtos alourados entra e chama meu nome. Lupe é a minha referência em Cuba para tudo o que concerne vouchers, transportes, passagens, hotéis. Ela se apresenta rapidamente, sua fala é mansa e simpática. Pergunto se o tempo estagnou nesse calor e ela arqueia as sobrancelhas, solta um riso de canto de boca e responde que sim. “Era para estar mais fresco, mas não está.” Não me consolo. Pergunto outras informações básicas como o câmbio e o preço de coisas triviais. Ela não se apressa. É gentil em me dar as informações que preciso. Já estamos de partida, então ela escreve seu número de telefone em um dos muitos papeis que agência de viagem me deu, se despede e desce do ônibus.

A guia da Cubatur relaciona a ordem de parada dos hotéis e como o Plaza fica em Havana Velha, centro histórico, Rita e eu seremos as últimas a ser deixadas. É chato porque preciso desesperadamente de um banho, mas não será de todo o mal. Poderemos dar uma volta grande em Havana.

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Automobiles e uma cidade em ruínas

O caminho do aeroporto até a cidade é bonito. Só o vidro da janela me separa das planícies verdes e tropicais do lado de fora. Ao contrário do que imaginara, o asfalto é liso e conservado. Começamos a ver cidade. São bairros de subúrbio de Havana, as ruas são veredas estreitas, casas com paredes descascadas colam-se umas às outras. Não consigo me concentrar no que a mulher diz no microfone – um mix de city tour e dados estatísticos do país. Estou com os olhos e a câmera vidrados no mundo que passa. A trilha sonora é “Chan Chan”, do Buena Vista Social Club. Só na minha cabeça.

Quando entramos no bairro de Miramar, noto como ele se assemelha às regiões suburbanas dos Estados Unidos da década de 1950. Aqui o espaço é amplo e as casas são térreas, espaçadas e sem muros ou grades. Só um gramado na frente. Os automobiles aos poucos vão dando as caras. Não há lixo na rua. Por todo canto há bancos e sombras de árvores. São as praças que os cubanos conhecem como parques. Parece que o tempo voltou.

1950 em 2009

Na medida em que adentramos a cidade, a paisagem vai mudando. Os prédios estão caindo aos pedaços. É uma decadência escancarada, sem vergonha. Casarões coloniais e neoclássicos construídos com esmero que agora se tornaram cortiços em cujas janelas secam calcinhas num varal improvisado. A impressão impossível que tenho é que o tijolo e o cimento estão enferrujados. Essa é a cor que têm. Estamos na avenida paralela ao famoso Malecón, a orla de Havana, já no bairro de Vedado. Há pouco tempo, passamos por um prédio estranhíssimo e enorme. Os auto-falantes explicam que o monstro de concreto retangular costumava abrigar a Embaixada da União Soviética. Seca. Sem adornos. Amedrontante.

Atrás do histórico e imponente Hotel Nacional (que parece um forte), a realidade é dura. Quase tenho vontade de pedir para me levarem de volta ao aeroporto. “O que diabos eu vim fazer aqui?”, me pergunto clandestinamente.

Cuba Rita

Nem o caminho pelo Malecón e a vista do mar azul escuro atenuam o incômodo que sinto.

“Coisas belas e sujas.” Sempre gostei dessa combinação de palavras e da implicação sexual que a acompanha. É uma definição acurada de Havana Velha. Duas horas de trajeto e a parada final do ônibus é o Plaza Hotel, no vértice da rua Ignacio Agramonte, no centro do bairro. Enquanto faço um scan 360° do que circunda o ponto, o motorista carrancudo saca a mala do bagageiro na esquina do prédio e nos despacha sem cerimônia. Com um pé direito de muitos metros que eu não saberia precisar, o Plaza tem uma estrutura incrível. Descubro que a construção de geometria singular data do início do século XX.

Plaza

Recepção do Hotel Plaza

A mulher que nos atende na recepção é memorável. Tem a pele morena, os cabelos cacheados castanhos quase pretos, torneados por mechas mais claras. Sua figura delgada está poluída de tantos acessórios. Anéis dourados adornam quase todos os dedos. As unhas são muito compridas, me lembram Alcione, e desenhadas com flores feitas com esmalte dourado, como não! Seu pescoço e colo estão cobertos de colares. Não consigo ler a plaqueta com seu nome. Ela fala rápido e embolado então vou por dedução. Envergonho-me do diploma de espanhol que nunca emoldurei. Ela entrega um cartão de identificação de hóspede e as chaves. Javier, o bagageiro, nos acompanha até o quarto 230, acende as luzes e vai-se embora. Sempre me esqueço de dar gorjeta e aqui essa falha deve contar mais.

A habitación é simples, mas espaçosa. Os móveis são pesados e antigos, de madeira escura. Fiquei à vontade com a luz dos abajures, não me incomodou a ausência de luz no teto. Disponho de uma televisão, um frigobar pequeno e repleto, um armário grande e um banheiro limpo e velho. Decidimos experimentar uma Cristal, a cerveja mais popular de Cuba. Não tenho o hábito nem o luxo de poder beber com o estômago vazio, mas depois de tanto calor e viagem, a cerveja caiu muito bem. Meus pés viraram duas bolinhas de tanto inchaço. Ninguém gosta de admitir, muito menos eu, que ainda não saí da casa dos 20 anos, mas isso é sintoma da idade. Como se não bastasse, minhas pernas também reagiram e parece que eu tenho elefantíase. É muito estranho sentir a própria circulação.

Depois de desvirginar o frigobar para finalmente degustar a refrescante cerveja Cristal, descansamos e conversamos um pouco no quarto, em especial sobre nossa primeira impressão de Havana. Concordamos que ela é ruim. Realmente espero que aqui não se aplique aquela máxima de que a primeira impressão é a que fica.

Será em vão, mas tomo uma ducha para me livrar do calor, da pele ungida, do cheiro que trouxe comigo do Brasil. Para que eu entre no espírito deste lugar, é preciso me despir de qualquer outro. Preciso sentir Havana como ela é.

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Cadeca, Capitólio e assédio

Vamos ao hotel vizinho trocar dinheiro em uma Cadeca, casa de câmbio oficial. Muita gente me alertou para não trazer dólares americanos porque na hora da conversão, além de pagar a taxa de câmbio, você é literalmente multado por circular com verdinhas ianques no país. A questão monetária cubana é particular. O Banco Central emite dois tipos de nota: o peso cubano, que tem um poder de compra irrisório, e o peso convertido, o famoso CUC, que é o dinheiro de fato. O sobressalto comum ao estrangeiro é que 1 euro vale 1,31 CUC. Economia não é meu forte e não entendi desde o início como um país pobre como Cuba consegue sustentar um câmbio assim. Recebo meus 131 CUCs e não tenho a menor noção de quanto isso realmente vale aqui.

Não posso dizer que conheço meio mundo, mas já viajei um bocado e em nenhum lugar tive de pagar por um mapa. Aqui, claro, não é assim. Encontro um balcão turístico no lobby do Plaza. Em meio às muitas facetas de Che Guevara, convertidas em pôsteres, postais e marca-livros, estão estendidos dois ou três tipos de mapas. Por 3 pesos, escolho um que também tem os caminhos de Santiago e de Varadero, meus próximos destinos. Munida de direções, quero sair e explorar Havana Velha.

Rita e eu estamos caminhando pelas ruas há menos de cinco minutos e já perdi a conta de quantos homens se assanharam para nós. Não vale à pena tentar reproduzir o conteúdo das cantadas. Deu para perceber que aqui, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Pergunto-me se esse ditado popular é seguido à risca aqui e, pelo pouco que vi, não duvido que seja. Melhor sorrir e seguir o rumo.

Logo descobrimos que o ponto do hotel é excelente. São cinco e pouco da tarde e o calor não cedeu nem há de ceder. Cruzamos a praça, cheia de sombras benevolentes, em cujo centro está um monumento ao heroi da Independência, José Martí. Não sei se é porque vim de uma cidade sem heróis de pedra e sem praças para abrigá-los, mas acho estranho ver as pessoas sentadas nos bancos, absolutamente alheias ao olhar fixo e onisciente de uma das maiores personalidades nacionais. Seguimos o curso pelo Paseo de Martí e admiro a fachada do alvo e clássico Hotel Inglaterra. Ao seu lado, está o Gran Teatro Nacional de La Habana. Antigamente, muito antigamente, ele costumava abrigar a Associação Asturiana, um reduto refinado do orgulho espanhol. Fico interessada em entrar. Dura pouco. Meus olhos enrabicham pela esquerda e um monumento – porque aquela potência não se transfere a um edifício – esplêndido desvia minha atenção. Eis o Capitólio.

Capitólio

Inaugurado em 20 de maio de 1929, após recordes 3 anos e 50 dias de construção, o colosso de Havana já foi palácio presidencial, sede do governo, Câmara e Senado. Hoje abriga pomposamente o Ministério de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. O projeto de Raúl Otero e Eugenio Rayni

eri foi inspirado no Capitólio da capital dos Estados Unidos, Washington. Os 93 metros de altitude até a ponta da cúpula já foram o cume da cidade, perdendo seu posto celeste para o Memorial José Martí, em 1950. Nunca me incomodou ter meio metro de altura, mas, veja, me sinto minúscula. Ficou até difícil tirar fotos. O pontinho branco e jeans que se vê na foto poderia ser qualquer pessoa. Em cada lado da escada, uma escultura imensa. A da direita representa a Virtude Tutelar do povo e a da direita, o Trabalho. Austeras, sisudas e lindas. Estou emocionada.

A escadaria do que parecem mil degraus me parece cansativa, sobretudo com este calor dantesco, mas vale à pena. Concomitantemente à primeira investida ao degrau, escuto um apito triplo e estridente. Pi Pi piiiiiiiiiii.

O sentinela

Um guardinha (en)fardado vem descendo e apitando. Uma simpatia em pessoa. Nem se dá o trabalho de abrir a boca para responder “sim” ou “não” quando pergunto se é permitido subir. Burocraticamente, faz o sinal do relógio de pulso e entendo que passei da hora (e, pelo visto, dos limites). Mas, espere. Tudo bem, não posso entrar no Capitólio, já está fechado, mas é proibido subir as escadas? Quer dizer que a pedra angular do turismo, que consiste em subir e tirar fotos, não é permitida? Raro. Rio do japonês desobediente que sorri amarelo pra foto e desce a passos rápidos. Faço algumas fotos mais e me prometo voltar aqui. Vou subir as malditas escadas.

Achamos melhor voltar rumo ao Tacón. Parece que tem uma placa no meu pescoço escrito TURISTA. Fico pensando se existe alguma coisa que nos trai. Será o jeito de vestir ou falamos português muito alto? Prefiro culpar a Rita, que é uma leite-moça. Apesar de que só isso não adiantaria. Cubanos também são brancos. De nada adianta cogitar. Não conseguimos andar impunes. A todo momento, alguém pede ou oferece alguma coisa. “Táxi. As senhoritas desejam um táxi?” Fico um pouco curiosa com as caras suplicantes. Me corta um pouco o coração já que a gente tem noção do que as pessoas passam aqui, mas é um resumo literário. Ver na prática é diametralmente diferente. Também me dá um nervoso, não estou acostumada a tanto assédio.

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Um golpe de putos no Paladar

Próximo ao teatro, um homem franzino e dentuço, cuja semelhança com a nossa beldade Ronaldinho Gaúcho me assombra, aponta para os pés da Rita, diz qualquer coisa em um tom amigável de um espanhol ininteligível e primeiro eu acho que ele está elogiando seus sapatos. Estúpida, informo que aqueles pares são da marca Melissa. Repito devagar, reproduzindo fielmente a mania de falar de-va-gar na esperança de que o ritmo e não o idioma garanta a compreensão de uma pessoa de outro país. Ao lado dele, anda uma mulher baixinha, menor do que eu.  Como é que ela tem coragem usar uma calça jeans com esse clima? Imagino que ela deva estar presa nas calças há três dias de tão difícil que é de tirar. Nos damos conta de que ele se refere à tatuagem da Rita. Quer saber o que está escrito. “Sê inteiro”, de Fernando Pessoa. Logo o homem levanta a blusa para exibir as suas próprias tatuagens e, na minha hipocrisia brasileira, fico vexada.

O casal é composto por Alberto e Cristina. Eles nos cumprimentam aos beijos após se apresentarem e puxam papo. De onde somos, parabéns pelas olimpíadas no Rio de Janeiro em 2016, o Brasil é um paraíso, as novelas são maravilhosas. Eles nos trazem a boa nova de que, em comemoração ao aniversário do inigualável Buena Vista Social Club, está acontecendo um festival de salsa na cidade e é de graça. Pergunto onde será a festa e os dois se oferecem para nos mostrar o local. Quanta boa vontade. Enquanto vamos andando nas ruelas estreitas e lúgubres de trás do Capitólio, incorro no erro fatal de perguntar se há algum restaurante bom por perto. Não comemos nada desde que pisamos em Cuba. “Sí, como no!”, exclama Alberto. “Vou levá-las em um paladar, onde se come comida criolla, que é o que o cubano realmente come”, explica. Ótimo. Vou conferir a culinária tradicional.

Seguimos conversando e noto que Cristina tem um sorriso de ouro. Pelo menos 3 dentes são de ouro, ou folheado, não sei como isso funciona por aqui. Quando um dos dois para e avisa que chegamos ao restaurante não vejo mesas de fora e mal enxergo a placa que identifica o local. Eles abrem a porta, nos mandam entrar e fico sem rumo porque me deparo com uma sala de estar. Olho para a Rita, ela olha pra mim… Alberto cumprimenta alguém e entra em um cômodo à direita, fazendo sinal para que o sigamos. Então, chegamos ao paladar. Trata-se de sala hermética, sem conexão com o mundo de fora. Cinco mesas redondas, ar condicionado e cortinas vermelhas horrendas. Não há ninguém. O lugar é nosso.

Rita e eu nos sentamos e, repare na intimidade, Alberto e Cristina também se sentam. Uma mulher alta e rechonchuda pergunta o que queremos beber e traz quatro cervejas em seqüência. Mal começamos a conversar e Alberto pergunta se já vamos pedir. “Aqui não é um local de turistas.  A comida é muito mais barata”, ele prega. Não há muita opção. Porco, peixe ou frango. Cristina gentilmente me diz que o porco, aqui “cerdo”, é a comida tradicional. A garçonete/dona da casa/filha da dona me explica que cada prato custa 20 CUCs e vem acompanhado de moros y cristianos, o arroz e feijão deles, e vegetais. “Um prato serve duas pessoas?”, pergunto. Alberto é taxativo. De jeito nenhum. Naturalmente, eles pedem um prato para cada um e mal a mulher vai embora, Cristina já nos agradece pelo que estamos fazendo. Fazendo o quê? Ah, entendi. Que ótimo, a comida é por conta do Brasil.

Passado o desconforto do convite involuntário, começo a fazer perguntas para Cristina. Quero saber detalhes da vida deles, o que pensam do governo, o que eles podem e não podem fazer. Histórias mínimas. “Com Raúl [Castro, o presidente], as coisas estão muito mais difíceis. Tudo piorou”, diz, enquanto tira um Marlboro Lights meu, acende, e  só depois pede permissão. Ela conta coisas que parecem mentiras. Além das cotas de alimentos, que não suprem as necessidades de uma família ao longo de um mês, as mulheres são particularmente prejudicadas por uma questão de natureza. Existe cota para absorventes e a disponibilidade deles não é nem garantida nem regular. Ou seja, as cubanas ainda estão no tempo da toalhinha, do paninho dobrado. É inacreditável.

Coincidentemente, Alberto é cozinheiro do nosso hotel. Peço desculpas de antemão, mas não resisto em perguntar quanto ele ganha. “Ganho 240 pesos cubanos. Dá mais ou menos 24 pesos conversíveis por mês”, responde para uma platéia de duas boquiabertas. Como é possível viver com isso? Cristina trabalha para a fábrica de charutos Patargas, seu salário não é muito diferente. Ela conta que os funcionários das fábricas têm direito a duas caixas por mês e, para fazer uma renda extra, eles se juntam no que ela chama de “cooperativa” e vendem clandestinamente. É o famoso mercado negro do tabaco. Comentamos que trouxemos algumas coisas para dar, sabonetes, pastas de dentes, etc. Ela diz que seria de grande ajuda e não perde a chance de perguntar se também não trouxemos roupas. “Pra mim? Sim, claro. Não posso andar pelada”, penso comigo mesma, com um sarcasmo inevitável. Prefiro acreditar que ela quis saber por curiosidade.

A comida chega e me dou conta de que cada prato que pedimos equivale ao salário deles. Tem alguma coisa errada aqui. Aliás, tem várias coisas erradas aqui, a começar pelo tamanho de cada prato. Só eu fui bonificada com pelo menos uns cinco bifes de porco. O acompanhamento é uma verdadeira panela de arroz e feijão e uma travessa de vagem. Como que isso é individual? Me sinto tão enganada, você não pode imaginar. Não sei qual parte do porco é essa, mas lombo certamente não é. A comida é insossa. A carne não tem tempero algum a não ser sal e limão, nada teatral. Como porque estou com fome. Rita faz o mesmo com seu peixe.

Alberto entra e sai a todo momento da sala. Come pouco, ao contrário de sua mulher. “A gente não é casado, casado. Sabe como é? Temos uma filha de 3 anos. Ela se chama Lorena”, conta Cristina. Alberto se junta a nós com um presente. Uma moeda de 25 centavos de peso cubano, “la moneda del Che”. De um lado seu rosto, do outro uma imagem dele cortando cana. Um gesto gentil ou será a sua contribuição na conta? Meu Deus, perdoai minha maldade.

Não sei do que a gente estava rindo. Repare o saco plástico na mesa.

Já não posso mais comer e ainda tem muita coisa no prato. Digo que estou satisfeita e me perguntam com espanto se não gostei da comida. É fato, não gostei, entretanto fico com a opção educada. “Imagina, estava uma delícia”, minto, descaradamente. Pedimos a conta e o que vem é uma bigorna na cabeça: 99 CUCs. O casal já avisara que era um convite. Eles nem se alteram. Mal chegamos e morremos em quase 50 euros cada uma. Se cada refeição custar um cubano a tira colo e 50 euros, acho que vou reavaliar o papel da nutrição nessa viagem.

Mas é a cena que se segue que realmente não tem preço. Alberto pede à rechonchuda uma sacola plástica, dessas de supermercado, e raspa as carnes que sobraram nos pratos para dentro dela. Vão levar a comida para casa. Assim, em uma sacola plástica, como se fosse um souvenir que acabaram de comprar. Há muito tempo que a pequena Lorena não vê um pedaço de carne. Eu sei que essa história se repete no Brasil. Não venho de um país onde não há miseráveis, famintos, pedintes. Então, por que será que fico tão incomodada? Reflito e me critico o suficiente para reconhecer que santo de casa não faz milagre. No Brasil, eu me esquivo da pobreza. Aqui, não dá.

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“Mafia cubana”

Bom, eu também estou mais pobre, então a festa de salsa gratuita me interessa muito. Já é noite e seguimos com eles pelas ruas agora mal iluminadas. “Isso que vocês estão vendo é a realidade cubana”, diz Cristina. De portas literalmente abertas, sou convidada a ver as salas minúsculas em que três, quatro, oito pessoas se aglomeram, apertadas, encaloradas. A televisão reina por aqui, não há muito o que se fazer nem dinheiro que possa comprar diversão. Me bate uma tristeza, lembro daquela música do Vinícius de Moraes, tão linda na voz da Bethânia, que diz assim: “é gente humilde / que vontade de chorar”.

"A realidade cubana"

O momento passa quando Cristina diz que está nos levando na cooperativa. Meu segundo erro fatal foi ter comentado no paladar que eu gostaria de comprar charutos. Digo que é melhor passarmos lá amanhã, hoje quero mesmo saber onde é o festival, mas os dois insistem, me deixam sem jeito. Vêm com aquela lorota tão conhecida dos brasileiros, aquela pressão sutil que faz com que você se sinta um imbecil se deixar passar a oportunidade. Não gosto de ser coagida. Além do mais, é nosso primeiro dia aqui, posso estar me precipitando. A vontade que tenho é de puxar a Rita pra outra rua e sair correndo. Mas há um porém. Se eu voltar de Cuba sem os puros tão amados do meu pai, acho que ele me manda de volta só pra comprar. Pior, acho que ele nunca mais olha na minha cara. É sério assim.

Resolvo cair na conversar. A “cooperativa” nada mais é do que a casa de alguém. Dois ou três homens estão conversando em frente à casa e não fazem muito caso quando entramos. Cristina, que já me chama de “amiga”, veja você, me apresenta a dona da casa e senhora da mutreta. Esqueço instantaneamente seu nome. Desfila pra lá e pra cá em um short extra curto, ela tem pernas pra isso (penso como sou flácida e preguiçosa). Ela também tem um dente de ouro e unhas enormes. Reclama que a escova que fez no cabelo não durou nem um dia nesse tempo. Manda que nos sentemos. A opção é um conjunto de sofá e poltronas de estofado absolutamente quente e decrépito. Chama o marido/homem/senhor da mutreta pra nos atender. “Las chicas buscan los puros”, resume.

O guia

O Senhor Cohiba, como decidir chamá-lo, é um negro intimidante. Transpira sem parar. Em seu pescoço pende uma corrente dourada considerável, ao melhor estilo bicheiro. Quando ele pergunta o que eu quero, fico uns dez segundos sem responder porque não dá para não prestar atenção ao fato de que todas, eu disse todas, as pontas dos seus dentes da arcada superior são de cobertas de ouro. Caio em mim e, humilhada, abro uma folha de papel – um guia – com fotos e informações sobre os charutos que meu pai gentilmente me deu após um tutorial em como reconhecer tabaco falsificado. O cara não tem outra opção a não ser rir. Peço Montecristo, Cohiba Esplendido, Patargas, Romeo y Julieta, meu filho, traga o que tiver. Me diz pra esperar um poquito. Sai, chama alguém e em questão de segundos começam a chegar caixas e mais caixas dos preciosos enroladas em camisetas, dentro de mochilas ou em sacolas pretas. Cheiro um por um, aperto pra sentir a consistência, tento não parecer mais idiota e leiga do que eles acham sou.

Quero saber o preço e ele sempre se esquiva. Finge que não ouvir. Gesticula dando a entender que a gente conversa sobre isso depois. Se eu peço outra coisa, não tem problema. Senhor Cohiba conhece quem precisa, se ele não tem, alguém terá. Começo a achar a situação estranha e pergunto em um espanhol trêmulo o que diabos está acontecendo. “Máfia cubana”, responde, sorrindo dourado. Eu rio de nervoso, sinto uma fincada de adrenalina na axila. O negócio é o seguinte: eu já mandei baixar meio estoque de charuto de Havana, então ou eu compro ou eu morro. Vendem meus órgãos em troca de mais ouro pra cobrir mais dente. Meu Deus, onde é que fui me enfiar.

Sou parte judia e confesso que o cromossomo da barganha veio torto no meu caso. Mas o Senhor Cohiba quer me empurrar cinco caixas de charutos por 500 CUCs. Pra começar, só posso sair do país com duas caixas. Teoricamente, eu precisaria da nota fiscal e isso todo mundo sabe que não vai acontecer. Por fim, nem aqui nem na China eu vou pagar essa fortuna. Digo que com esse dinheiro vou a uma loja e compro uma caixa com garantia de autenticidade e nota fiscal. Eu estou com medo do Senhor Cohiba, mas negociar é preciso. Depois de muita saliva na minha cara, chegamos ao um preço decente. Levamos três caixas por 280 pesos. Cristina diz que eles ganham um bônus por levar clientes até a cooperativa. O prêmio é uma caderneta a mais para compras de supermercado.

Temos que trocar mais dinheiro já que o que nós tínhamos foi Havana abaixo. Cristina e Alberto nos acompanham até o Hotel Parque Central, mas desta vez não andam ao nosso lado. Andam muito à frente, carregando a sacola plástica cheia de porco e peixe misturados, já nem ligam pra nós. Se limitam a olhar pra trás algumas vezes só pra garantir que estamos seguindo. Sabem onde estamos hospedadas, não temos nem como tentar dar o golpe. Quando me lembro do festival de salsa, dão explicações vagas, imprecisas. Um monte de esquerdas e direitas que não formam nenhum endereço.

Fazemos o câmbio e entrego o que falta. Alberto vê uma nota de 20 CUCs na minha mão e com uma cara de cachorro abandonado – o que ele é –, junta as mãos em sinal de prece e me pede o dinheiro. Nego veementemente. Basta. Nos despedimos na porta do hotel e eles somem na escuridão.

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Arquivado em Havana