Próximo ao teatro, um homem franzino e dentuço, cuja semelhança com a nossa beldade Ronaldinho Gaúcho me assombra, aponta para os pés da Rita, diz qualquer coisa em um tom amigável de um espanhol ininteligível e primeiro eu acho que ele está elogiando seus sapatos. Estúpida, informo que aqueles pares são da marca Melissa. Repito devagar, reproduzindo fielmente a mania de falar de-va-gar na esperança de que o ritmo e não o idioma garanta a compreensão de uma pessoa de outro país. Ao lado dele, anda uma mulher baixinha, menor do que eu. Como é que ela tem coragem usar uma calça jeans com esse clima? Imagino que ela deva estar presa nas calças há três dias de tão difícil que é de tirar. Nos damos conta de que ele se refere à tatuagem da Rita. Quer saber o que está escrito. “Sê inteiro”, de Fernando Pessoa. Logo o homem levanta a blusa para exibir as suas próprias tatuagens e, na minha hipocrisia brasileira, fico vexada.
O casal é composto por Alberto e Cristina. Eles nos cumprimentam aos beijos após se apresentarem e puxam papo. De onde somos, parabéns pelas olimpíadas no Rio de Janeiro em 2016, o Brasil é um paraíso, as novelas são maravilhosas. Eles nos trazem a boa nova de que, em comemoração ao aniversário do inigualável Buena Vista Social Club, está acontecendo um festival de salsa na cidade e é de graça. Pergunto onde será a festa e os dois se oferecem para nos mostrar o local. Quanta boa vontade. Enquanto vamos andando nas ruelas estreitas e lúgubres de trás do Capitólio, incorro no erro fatal de perguntar se há algum restaurante bom por perto. Não comemos nada desde que pisamos em Cuba. “Sí, como no!”, exclama Alberto. “Vou levá-las em um paladar, onde se come comida criolla, que é o que o cubano realmente come”, explica. Ótimo. Vou conferir a culinária tradicional.
Seguimos conversando e noto que Cristina tem um sorriso de ouro. Pelo menos 3 dentes são de ouro, ou folheado, não sei como isso funciona por aqui. Quando um dos dois para e avisa que chegamos ao restaurante não vejo mesas de fora e mal enxergo a placa que identifica o local. Eles abrem a porta, nos mandam entrar e fico sem rumo porque me deparo com uma sala de estar. Olho para a Rita, ela olha pra mim… Alberto cumprimenta alguém e entra em um cômodo à direita, fazendo sinal para que o sigamos. Então, chegamos ao paladar. Trata-se de sala hermética, sem conexão com o mundo de fora. Cinco mesas redondas, ar condicionado e cortinas vermelhas horrendas. Não há ninguém. O lugar é nosso.
Rita e eu nos sentamos e, repare na intimidade, Alberto e Cristina também se sentam. Uma mulher alta e rechonchuda pergunta o que queremos beber e traz quatro cervejas em seqüência. Mal começamos a conversar e Alberto pergunta se já vamos pedir. “Aqui não é um local de turistas. A comida é muito mais barata”, ele prega. Não há muita opção. Porco, peixe ou frango. Cristina gentilmente me diz que o porco, aqui “cerdo”, é a comida tradicional. A garçonete/dona da casa/filha da dona me explica que cada prato custa 20 CUCs e vem acompanhado de moros y cristianos, o arroz e feijão deles, e vegetais. “Um prato serve duas pessoas?”, pergunto. Alberto é taxativo. De jeito nenhum. Naturalmente, eles pedem um prato para cada um e mal a mulher vai embora, Cristina já nos agradece pelo que estamos fazendo. Fazendo o quê? Ah, entendi. Que ótimo, a comida é por conta do Brasil.
Passado o desconforto do convite involuntário, começo a fazer perguntas para Cristina. Quero saber detalhes da vida deles, o que pensam do governo, o que eles podem e não podem fazer. Histórias mínimas. “Com Raúl [Castro, o presidente], as coisas estão muito mais difíceis. Tudo piorou”, diz, enquanto tira um Marlboro Lights meu, acende, e só depois pede permissão. Ela conta coisas que parecem mentiras. Além das cotas de alimentos, que não suprem as necessidades de uma família ao longo de um mês, as mulheres são particularmente prejudicadas por uma questão de natureza. Existe cota para absorventes e a disponibilidade deles não é nem garantida nem regular. Ou seja, as cubanas ainda estão no tempo da toalhinha, do paninho dobrado. É inacreditável.
Coincidentemente, Alberto é cozinheiro do nosso hotel. Peço desculpas de antemão, mas não resisto em perguntar quanto ele ganha. “Ganho 240 pesos cubanos. Dá mais ou menos 24 pesos conversíveis por mês”, responde para uma platéia de duas boquiabertas. Como é possível viver com isso? Cristina trabalha para a fábrica de charutos Patargas, seu salário não é muito diferente. Ela conta que os funcionários das fábricas têm direito a duas caixas por mês e, para fazer uma renda extra, eles se juntam no que ela chama de “cooperativa” e vendem clandestinamente. É o famoso mercado negro do tabaco. Comentamos que trouxemos algumas coisas para dar, sabonetes, pastas de dentes, etc. Ela diz que seria de grande ajuda e não perde a chance de perguntar se também não trouxemos roupas. “Pra mim? Sim, claro. Não posso andar pelada”, penso comigo mesma, com um sarcasmo inevitável. Prefiro acreditar que ela quis saber por curiosidade.
A comida chega e me dou conta de que cada prato que pedimos equivale ao salário deles. Tem alguma coisa errada aqui. Aliás, tem várias coisas erradas aqui, a começar pelo tamanho de cada prato. Só eu fui bonificada com pelo menos uns cinco bifes de porco. O acompanhamento é uma verdadeira panela de arroz e feijão e uma travessa de vagem. Como que isso é individual? Me sinto tão enganada, você não pode imaginar. Não sei qual parte do porco é essa, mas lombo certamente não é. A comida é insossa. A carne não tem tempero algum a não ser sal e limão, nada teatral. Como porque estou com fome. Rita faz o mesmo com seu peixe.
Alberto entra e sai a todo momento da sala. Come pouco, ao contrário de sua mulher. “A gente não é casado, casado. Sabe como é? Temos uma filha de 3 anos. Ela se chama Lorena”, conta Cristina. Alberto se junta a nós com um presente. Uma moeda de 25 centavos de peso cubano, “la moneda del Che”. De um lado seu rosto, do outro uma imagem dele cortando cana. Um gesto gentil ou será a sua contribuição na conta? Meu Deus, perdoai minha maldade.

Não sei do que a gente estava rindo. Repare o saco plástico na mesa.
Já não posso mais comer e ainda tem muita coisa no prato. Digo que estou satisfeita e me perguntam com espanto se não gostei da comida. É fato, não gostei, entretanto fico com a opção educada. “Imagina, estava uma delícia”, minto, descaradamente. Pedimos a conta e o que vem é uma bigorna na cabeça: 99 CUCs. O casal já avisara que era um convite. Eles nem se alteram. Mal chegamos e morremos em quase 50 euros cada uma. Se cada refeição custar um cubano a tira colo e 50 euros, acho que vou reavaliar o papel da nutrição nessa viagem.
Mas é a cena que se segue que realmente não tem preço. Alberto pede à rechonchuda uma sacola plástica, dessas de supermercado, e raspa as carnes que sobraram nos pratos para dentro dela. Vão levar a comida para casa. Assim, em uma sacola plástica, como se fosse um souvenir que acabaram de comprar. Há muito tempo que a pequena Lorena não vê um pedaço de carne. Eu sei que essa história se repete no Brasil. Não venho de um país onde não há miseráveis, famintos, pedintes. Então, por que será que fico tão incomodada? Reflito e me critico o suficiente para reconhecer que santo de casa não faz milagre. No Brasil, eu me esquivo da pobreza. Aqui, não dá.